09/11/2011 04:26 h
Certas coisas só acontecem comigo e a gente nunca sabe quando irá aprender algo
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Aliás, é só prestar atenção na vida e ter a mente aberta para o novo, que o mundo parece conspirar a nosso favor e ser um grande instrutor.
Eu estava zapeando sem rumo (vocês sabem como é), quase com sono, quase dormindo, quando vejo na TV a frase, em azul: Orlando's Classics.
Obviamente o faro basqueteiro me despertou e eu esperei alguns minutos de entediante publicidade para ser presenteado com um jogo de 20 de dezembro de 1989 entre Orlando Magic e Chicago Bulls.
A temporada de 89-90 foi a primeira vez que Phil Jackson assumia a direção dos Bulls e iniciava a sua brilhante carreira e o que vi e passo a lhes descrever tem muito que ver com o sucesso que esta franquia conquistou nos anos vindouros.
Os Bulls, naquela época, obtiveram um recorde de 55 vitórias e 27 derrotas, sendo derrotados pelos Pistons por 4 a 3 na final de conferência, após passarem por Milwaukee (3 a 1) e Philadelphia (4 a 1).
Michael Jordan, que nesse jogo encaçapou 52 pts (20 de 37, mais 10 lances-livres), teve uma média de 32,5 pts por jogo naquela temporada.
Por outro lado Orlando, ainda no começo da franquia, venceu apenas 18 partidas e engoliu 64 derrotas em 89-90.
Eu peguei o jogo na metade do 3º quarto e pude ver o famoso quinteto formado por Jordan, Pippen, Paxson, Grant e Catwright, recuperar 10 pts de desvantagem (só com a defesa), levar o jogo no pau até o final quando MJ, com um DPJ de tabela passou à frente faltando 7 segundos, para depois sofrer uma cesta de Otis Smith, que naquele jogo saiu do banco para fazer 28 pts (10 de 15 mais lances-livres), que deu os números finais da partida.
Orlando começou o jogo com Mark Acres, Terry Catledge, Reggie Theus, Sam Vincent e Jerry Raynolds (que para mim era um brancão que estava ali no meio) todos vindo de trocas na expansão da NBA da época.
Após a cesta de Smith, os Bulls não tinham mais tempo a pedir e tiveram que sair com a bola do fundo da quadra com um passe longo de Pippen a MJ, que com pouco mais de 2 segundos (uma eternidade para ele) ainda tentou o arremesso final, mas foi massacrado por Theus e Vincent e o juiz engoliu o apito (sempre torci para os Bulls).
Durante o jogo, deu para ver Tex Winter, com o seu casaco de couro preto, orientar Phil Jackson, que também estava num estilo pós-hippie e portava um blazer bege, camisa verde, gravata marron e calças escuras, tudo isso com o cabelo à moda Roberto Carlos no filme O diamante cor-de-rosa e o bigode de mariachi mexicano, que na época lhe era característico.
Após a partida a televisão voltou para os dias de hoje e mostrou, no estúdio, um bate-papo entre o antigo narrador, o técnico Matt Goukas e o grande herói do jogo Otis Smith, que (como eu) usava um óculos para presbiopia.
O narrador eliciava os dois para reavivarem suas memórias do jogo e quando tocou no assunto do massacre da última bola de MJ, Goukas olhou para lá, Smith olhou prá cá, e após aquele segundo que, não verbalmente, dizemos a verdade, tascou " se o juiz não apitou, tá valendo".
Vendo esse jogo (de 22 anos atrás) e conhecendo a história de sucesso dos Bulls é difícil afirmar que aquele time na temporada seguinte iniciaria uma dominância marcante no jogo de basquete como conhecemos.
À exceção de MJ, que mesmo assim o narrador perguntava se ele seria um membro do Hall da Fama, todos os outros estavam em "gestação" e o modo de jogar tinha ainda muito para se aprimorar e se descobrir eficaz.
Pude identificar muitos corta-luzes para MJ pegar a bola e depois jogar no Pick & Roll, ou no DPJ.
Vi os futuros hexa-campeões da NBA isolarem MJ (Grant e Catwright fora da linha dos três pts) para que ele jogasse um contra um. Vi MJ pegar a bola após uma cesta de Orlando e ir sozinho arremessar de três pts sem fazer circular o jogo.
Foto: uol
Mas o momento crucial do jogo foi a jogada conhecida como "UCLA cut", criada por John Wooden há mais de 50 anos, que apareceu no repertório de movimentações especiais dos Bulls por algumas vezes.
Percebi, então, que Phil Jackson e Tex Winter tiveram um trabalho enorme para convencerem todos os jogadores a praticar o basquete vencedor que testemunhamos nos anos que se seguiram.
Não foi fácil, mas de qualquer maneira pudemos notar que essa partida, que aconteceu há vinte e dois anos, está ainda atual para o basquete jogado no Brasil.