COBERTURA ESPECIAL VIII FOOTECON
Técnico da seleção brasileira e dirigentes discutiram o processo de formação de jogadores no Brasil
AJESPORTES – A oitava edição do Footecon, Fórum Internacional de Futebol, realizado no Rio de Janeiro, discutiu o Modelo Barcelona x Modelo Brasileiro de Formação de Jogadores na última terça-feira, 6 de dezembro. Um dos convidados para falar sobre o assunto foi o técnico da seleção brasileira, Mano Menezes. A mediação do debate foi do jornalista Paulo César Vasconcellos.
Mano disse que “a maioria dos grandes clubes possui uma boa estrutura, mas carecem de uma filosofia de trabalho”. Para o treinador, “o clube está interessado apenas em formar um atleta e com isso não se trabalha o psicológico desses jogadores”.
De acordo com Mano, “os trabalhos dos treinadores dos clubes brasileiros são prejudicados porque não conseguem ser desenvolvidos sem uma sequência de resultados positivos nas competições, ou seja, os dirigentes não buscam técnicos de acordo com as filosofias de seus clubes”.
O consenso entre os debatedores presentes foi de que a filosofia de trabalho é peça fundamental para o sucesso das categorias de base. No entanto, isso só é conseguido através da continuidade do trabalho. Para eles, o grande problema está nos clubes onde a maioria tem eleições a cada dois anos. O novo dirigente implanta uma nova metodologia e, consequentemente, os profissionais são trocados.
“Os clubes devem treinar os ‘olheiros’ de acordo com a sua filosofia. Sem esse treinamento, cada um trabalhará de aneira diferente e não será benéfico para o clube formador”, disse Rodrigo Caetano, diretor executivo do Vasco da Gama, que completou: “uma das soluções para o problema seria apresentar um projeto aos conselhos administrativos com os prazos necessários para obter sucesso”.
Segundo Rodrigo, o conceito de vitória a qualquer custo deve ser mudado. O dirigente cruzmaltino afirmou: “um resultado negativo não pode invalidar um bom trabalho. As vitórias são consequências de uma boa formação”.
Mano Menezes falou que os jogadores sofrem pressão por bons resultados desde cedo. “Essa pressão já existe nas categorias de base que, consequentemente, formam equipes apenas para conquistar resultados. Não se pensa no futuro, apenas no resultado imediato. Com essa pressão, muitos bons jogadores não chegam ao time profissional”.
Além disso, Rodrigo Caetano acredita que a baixa remuneração dos profissionais que cuidam da base dos times brasileiros é um problema grave. No entanto, Marcelo Teixeira, diretor de futebol do Fluminense, citou o exemplo do Manchester United, clube inglês onde todos os membros da comissão técnica da base são valorizados e recebem o mesmo salário dos que trabalham no time principal.
De acordo com os palestrantes, os clubes devem valorizar os jogadores da base. Para eles, os clubes buscam jogadores no mercado e, quando não encontram, procuram nas categorias de base.
Palestrantes discutiram o modelo brasileiro de formação de jogadores. (Foto: Natan Pereira / AJEsportes)
Para Jorge Macedo, coordenador das categorias de base de Internacional de Porto Alegre, “a falta de uma política dos clubes formadores faz com que ‘as jovens promessas’ fiquem sob a responsabilidade dos técnicos dos times principais. Além disso, existe um processo acelerado de promoção de jogadores para a equipe profissional a fim de vendê-los para o exterior”.
Um dos motivos indicados pelos palestrantes, pela falta de maiores investimentos dos clubes é a legislação brasileira. A Lei 9.615/98, conhecida como Lei Pelé, diz que os jovens só podem assinar contratos profissionais com os clubes a partir de 16 anos. “Uma das maiores dificuldades é segurar e trabalhar um jogador com potencial”, disse Rodrigo Caetano.
Na opinião de Jorge Macedo, “o grande questionamento que os clubes fazem atualmente é analisar se é melhor formar jogadores desde o início sem a garantia de um contrato ou se devem adquirir os seus direitos aos 16 anos”.
Com os casos bem sucedidos do Santos e do Vasco, que, mesmo com o assédio dos times europeus, conseguiram manter o atacante Neymar e o zagueiro Dedé, respectivamente, os palestrantes acreditam que estes dois jogadores servem de exemplo para outros que acreditam que só conseguirão independência financeira se atuarem no exterior.
“As melhorias na infraestrutura, o apoio do clube ao jogador e a valorização do atleta vão fazer com que cada vez menos jovens optem por deixar a equipe que o revelou por uma proposta maior de outro clube”, finalizou Rodrigo Caetano.