segunda-feira, 25 de julho de 2011

Para se tornar jogador tem que sofre um pouco, e nunca desistir acreditar sempre.

Trombar com marmanjos durante duas horas para apanhar uma dezena de rebotes pode não parecer o emprego mais agradável do mundo. Para Shilton, é praticamente o paraíso. Ainda mais com a camisa da seleção brasileira, que ele defende nos Jogos Mundiais Militares. Por mais inglória que seja a briga no garrafão, o pivô matogrossense sabe que não se compara aos perrengues que já teve de passar ao longo da carreira. Com sangue indígena nas veias, o jogador, ainda na adolescência, morou durante dois anos e meio embaixo da arquibancada do ginásio do Ibirapuera. O cardápio era o mesmo todo dia: macarrão instantâneo feito na água quente do chuveiro. Mais de uma década depois, ele se tornou um dos maiores reboteiros do país e hoje colhe os frutos na seleção militar. Após a vitória sobre a Itália, na segunda-feira, batemos um papo na HSBC Arena. Sempre com o sorriso no rosto, o grandalhão só faz questão de avisar uma coisa: “Miojo eu não como mais”.
- REBOTE – Você conhece o Alberto Bial há muito tempo, trabalham juntos em Joinville, e ele confiou em você para ser o capitão da seleção militar. Como está sendo essa missão? 
- SHILTON - É exatamente isso, uma missão. Fui incorporado às Forças Armadas para praticar a atividade da qual eu vivo. Eu já passei por seleção brasileira, fui convocado e cortado…
- Aliás, você e o Felipe, que também está na seleção militar, foram cortados juntos do grupo do Sul-Americano em 2008. 
- Isso mesmo, ali nasceu uma amizade. E depois fomos chamados para ajudar nos treinos do Moncho na seleção principal. O orgulho de representar a seleção é grande em qualquer esfera, mas no Mundial Militar é maior, porque assim que você pisa num quartel, aprende que o país está acima de tudo. Aqui isso aflora muito mais, então ser o capitão é um orgulho inestimável. Se no mundo civil já é uma posição bacana, aqui dentro é muito mais valorizada.
>>> “Todo dia falo com minha mulher, e ela coloca o telefone na barriga para eu falar ao meu filho que vou voltar com uma medalha de ouro para ele”
- Como foi o processo para se tornar marinheiro? 
- Foi bem legal. É claro que tem algumas dificuldades, né. Você tem que estar de pé às 5h da manhã, o jantar é às 17h, aprender a marchar, prestar continência. É muito diferente do nosso mundo, mas duas coisas são bem similares: o respeito à hierarquia e o cumprimento dos horários. É um momento novo, mas ajuda muito na nossa experiência de vida.
- No meio de tudo isso, o seu segundo filho está para nascer. Como está a expectativa? 
- Pois é. Em 2008, quando fui convocado para a seleção e depois cortado, meu primeiro filho tinha acabado de nascer. Hoje ele está com 3 anos, e o segundo está para nascer agora, no dia 26 [dois dias depois da final dos Jogos Militares]. Todo dia falo com minha mulher, que está em casa, e ela coloca o telefone na barriga para eu falar que vou voltar com uma medalha de ouro para ele. Estou longe, sinto falta, mas é um momento de realização muito grande. Estou vestindo a camisa da seleção brasileira, representando meu país dentro de casa, e minha família está torcendo por mim.
- E como está o momento em Joinville? Você ainda não renovou, o time tem passado por dificuldades financeiras… o que você acha que vai acontecer? 
- É um momento realmente difícil, que também mexe muito com a parte pessoal. Todo mundo tem família e vive disso. É um aprendizado. Sei que o time vai ser mantido, a participação na liga já está confirmada. O Tiago renovou, o André Góes está voltando. Eu conversei com eles, mas ainda não resolvemos. É delicado, porque a minha carreira é divida entre antes de Joinville e depois de Joinville. Foi lá que consegui tudo como jogador. Não quero ir embora, mas sou profissional, se tiver que ir eu vou. Estou conversando com outras equipes. Mas comigo ou não, espero que Joinville consiga se reerguer. Os atletas lá são tratados pela população com muito carinho, muito respeito. Eu sempre tive o sonho de infância de um dia dar um autógrafo. Em Joinville fico uma hora depois dos jogos dando autógrafo e não consigo ir ao mercado sem alguém falar comigo na rua. Isso mostra o quanto a gente trabalhou.
>>> “Quando fui para São Paulo, passei dois anos e meio morando embaixo da arquibancada do ginásio do Ibirapuera. Não tinha porta, não tinha janela, o banheiro era coletivo, quando tinha show a gente não conseguia dormir. E eu só comia miojo feito na água de chuveiro”
- Passar por esse tipo de desafio não é novidade para você. No início da carreira você chegou a estar em situações bem piores, né. 
- Cara, foi uma época que eu valorizei muito. Quando eu tinha 14 anos e fui para São Paulo, para jogar no Círculo Militar, passei dois anos e meio morando embaixo da arquibancada do ginásio do Ibirapuera. Não tinha porta, não tinha janela, o banheiro era coletivo, quando tinha show a gente não conseguia dormir. E eu só comia miojo feito na água de chuveiro. A mãe de um atleta me deu um tupperware, e como obviamente eu não tinha dinheiro para comprar um microondas, sou muito grato àquele chuveiro, que tinha água bem quente para eu cozinhar o macarrão. Tanto que hoje eu dou risada disso, mas não como mais miojo. Minha mulher e meu filho adoram. Eles podem comer, mas eu não como [risos].
- Toda essa superação tem a ver com o sangue indígena que corre aí nas veias?
- Com certeza. Minha avó, já falecida, era índia da tribo bororo, do Mato Grosso. Fui criado indo para o meio do mato, indo na tribo quando era mais novo. Cresci tendo pouco. Nunca passei fome, mas o máximo que eu conseguia nas compras de mês do meu pai era uma bolacha recheada. Não tive essa felicidade de ter brinquedos, eu brincava na terra, no mato. Enquanto todo mundo comia pão, a gente comia mandioca assada de manhã. Meu pai e minha mãe caçavam para comer. Eu convivi com isso muitos anos e aprendi muita coisa. Então, quando fui para SP jogar basquete, comer miojo era maravilhoso [risos]. Minha origem só me deu força.

Conhecendo as seleções militares

seg, 18/07/11

por Rodrigo Alves |
categoria Jogos Militares

Como vocês já sabem, passei boa parte do meu domingo na HSBC Arena, para acompanhar o primeiro dia de basquete nos Jogos Mundiais Militares. A ideia era começar a aventura com o curioso Catar x Uzbequistão, às 9h, mas a programação do evento mudou, e acabei vendo Grécia 83 x 47 Chipre. Até o fim do dia, ainda vi outras duas partidas: a derrota do Brasil para a Lituânia (65 a 61) e a vitória dos Estados Unidos sobre a Coreia do Sul (76 a 68). Ao longo do domingo, muita gente me perguntou no twitter sobre as seleções. Conversei com algumas pessoas no ginásio para entender melhor o torneio, então vamos lá.
O Brasil, para quem ainda não sabe, tem um elenco todo formado por jogadores do NBB: Fred, Audrei, Felipe Ribeiro, Shilton, Estevam (os cinco titulares da estreia), Luiz Felipe Lemes, Tiagão, Rossi, Coloneze e Wagner, além de Arthur e Nezinho, que estão com Magnano em SP e só jogam se a equipe chegar à semifinal. No jogo de domingo, o Brasil teve o cestinha – Luiz Felipe, na foto, com 20 pontos –, igualou a Lituânia nos rebotes (32-32) e a superou em assistências (9×4), roubos (10×4), tocos (2×0), lances livres (87%x65%) e desperdícios (15×18). Perdeu por quê? Porque tomou decisões erradas no fim, e os lituanos, três vezes vice-campeões mundiais, tiveram frieza para defender melhor e converter seus lances livres nos últimos minutos. Aliás, perder jogos equilibrados, como todos sabemos, é a sina da seleção brasileira em todos os níveis, base ou adulta, militar ou civil.
Pelo que se comenta, além de Brasil e Lituânia há outras quatro equipes fortes no torneio: Coreia do Sul (atual campeã mundial), Itália (assim como na Coreia, os profissionais lá já são militares de antemão), Grécia (ganhou o penúltimo Mundial) e EUA (só militares, mas com tradição e boa estrutura de basquete nas Forças Armadas).
Com ingressos gratuitos (é só retirar nas bilheterias), o público deve ter superado mil pessoas no domingo – muito mais que a maioria dos jogos do Flamengo na Arena. É aquela torcida que pode não entender muito de basquete e grita “sou brasileiro com muito orgulho com muito amor”, mas ao menos incentiva a seleção o tempo todo e cria um clima favorável para o jogo. Na segunda-feira estarei lá e mando mais notícias, ok?